Romantização
Não tenho outra mente senão esta, não posso falar ou gerir como cada um perceciona o que vive. Não visto a pele dos que me rodeiam.
Mas por hoje pelo menos parece-me que muitas das vezes focamos quando se fala de trauma, de algum tipo de beleza etérea, como se a dor fosse a alma da criação. Consigo visualizar esse mundo, mas também consigo visualizar que toda a pele é mais do que isso. Talvez romantizamos a ideia de amores quebrados, amizades completamente apagadas, como se de alguma forma fosse desejado um pingo daquilo que outrora carregamos cá dentro.
A minha pele é muito mais que isso, um dia enquanto os meus pés eram pequenos e nem sabia eu o que era ser mulher, pensava que queria ser a filha perfeita, a mulher perfeita, a esposa, a mãe a irmã perfeita. Via o mundo como um oceano de possibilidades onde todas elas brilhavam com a força de mais de mil sois.
Não fui nada disso, pelo menos nem perto durante muito tempo, foi mais um poço de gritos com a cabeça debaixo de água, tentei magoar aqueles que jamais sairiam do meu lado. Não fui a filha perfeita, não fui nem irmã, nem amiga, pouco fui mulher pelo menos honrando ser mulher, repudiei cada noção de monogamia e amor. Compreendo abertamente a dor de ver o mundo e só ouvir as notas mais baixas, a ansiedade, o aperto o choro, sei o que é ver o mundo e escorrerem as lágrimas sem o entender.
Mas também fui outras coisas, compreendi que as mentes atormentadas são capazes de criar e emendar. Não me arrependo, quem não se encontra no meu caminho não sinto nenhum tipo de demonização, nem tudo é preto e branco há zonas cinzentas. Não têm de haver culpas, são situações onde tanto eu como o outro lado poderiam ter feito diferente, mas não tinham capacidade para tal. Não tem mal, essa é a realidade, sejam certas pessoas, situações ou os vilões da nossa história, não é o suficiente para vivermos o sofrimento como um circulo eterno e repetitivo, tem de tão mais que isso.
Entendo o que é não ver as cores do mundo, não saber porque partem inocentes e estamos vivos, sendo que passamos tantos dias tristes sem aproveitar a vida. Ouvir cada batida do coração como um grande tambor que não se cala. O desespero de falhar, a luta de desiludir mais uma vez, a incerteza de voltar a erros e aquela fraca adolescente que pouco sabia senão magoar-se a si mesma e aos seus. Sei o que é amar, sem sentir um pingo de amor, dar um coração que é um monte de pó só pela esperança de poder sentir algo. Ser a alegria da sala, fazer rir e iluminar corações enquanto que por dentro somos engolidos num pesadelo transparente, nada mais que um vácuo profundo e solitário.
Em momento algum foi sobre as outras pessoas, nem sobre mim, não temos todos a mesma pele, as dores que a minha carrega não é igual e vice versa. A minha pele é mais que as suas dores e os seus lamentos. Foi através disso que hoje ainda estou viva, sim porque viver e existir não é o suficiente, viver é uma luta onde temos de desconstruir emoções evoluir, perceber o altruísmo. Antes a minha vida era muito dormente, como costumava dizer a cor é uma distração, mas foi num colorido mar de rosas que percebi que ser mulher já é resistência.
Somos o ventre do mundo, não sou um homem não posso falar sobre as suas dores traumas e formas como o mundo os trata. Mas entendo hoje que mais do que o escuro que nos tenta engolir, somos rainhas do nosso próprio destino, donas da nossa cabeça.
Se algum dia não soube amar? Forcei-me a aprender, muitos abraços foram dados sem serem sentidos, até um dia compreender o valor do abraço, se um dia não fui boa filha, amiga, ou irmã tornei-me, se um dia não quis namorar a sério, casei-me, e aqui estou eu, pachorrenta com dois cães um marido com amor para dar e vender, como diz a música »amar pelos 2», nos dias em que eu não sou capaz de amar no meu melhor, e de braços abertos para estender amor nos dias em que ele não se sinta capaz de amar no seu melhor.
Entendo o meu valor, o meu lugar, os ancestrais a que devo a minha vassalagem, um compromisso para lá das estrelas.
A melancolia é um cobertor perigoso, faz-nos esquecer o que já conquistamos, lembrar de momentos como se estivéssemos melhor do que estamos hoje, até esquecer o quanto se cresceu. Faz ter saudades do impensável, cuspir na paz conquistada.
Por isso olho e penso que cada um de nós tem de ser mais que as suas lágrimas, cada vez mais responsável pelas suas decisões sem atribuir a nossa vida as ações dos outros. Não é fácil, continuo a querer desculpas para os meus falhanços, os meus dias depressivos, as lágrimas choradas em silêncio, a ansiedade acumulada que me faz ser menos amável comigo e com o meu corpo, compreendo que não me vejo com os olhos do mundo, os meus pesadelos não são os mesmos que mais ninguém. O medo de ser maltratada, não ser suficiente, de não merecer melhor, ser criticada pelos meus gostos. Quantas vezes fui criticada por ser este monte de cabelo esquisito que gosta de coisas parvas e tem uma cabeça mais infantil que uma criança. Um medo tão grande que te faz odiar uma cidade inteira, mas se não estivermos dispostos para ver para lá do medo, será que queremos mesmo ser pessoas melhores?
Ao fim do dia, é o meu mundo é tão pessoal que não faria sentido ter significado para alguém senão eu. Não sou igual a todo mundo, mas também ninguém é igual a ninguém, cada mente carrega as suas bagagens, nada nem ninguém deve colocar as suas bagagens na costas dos outros e culpar o mundo.
Todos merecemos cura, mas temos de estar dispostos a descobrir como e quando dar adeus, o que largar, doa o que doer. Senão na vasta casa que é a nossa mente vamos estar sempre de fora da cerca, sem cuidar do nosso lar, a ver cada tijolo cair na inércia, sem evoluir sem crescer. No final sobram ruinas, sem se compreender como cortar o mal pela raiz, estagnados na nossa dor e erros, por na verdade o difícil não é errar, mas sim evoluir, fazer melhor. Ter a coragem de mil sois para mudar a narrativa.
O meu arco-íris não tem de ser igual ao teu, mas tenho de saber o suficiente sobre mim para conservar a minha luz e não ser compreendido ou diferente do que se espera não é uma coisa má, o facto de eu ser assim não faz de mim uma pessoa incapaz de viver em sociedade, nem de ser um ser humano com compaixão e a possibilidade de fazer melhor. Aprendi a não dar perolas a porcos, a minha paz a minha espiritualidade não merece nenhum pesadelo ou medo ser maior que a minha força.
A única liberdade possível, é florescer. A dor é um veneno que corrói para lá do que conseguimos viver, então de uma forma ou de outra cada um tem de entender onde ir buscar o seu antidoto, no final não vale desperdiçar tempo que não temos.
O mundo já esta quebrado o suficiente para nos deixarmos ser engolidos pela escuridão da nossa vivência. Talvez não vês luz porque só estas disposto a enxergar a escuridão, mesmo que tenhas um sol a tua frente, pois mudar é difícil, mas ninguém deve nada a ninguém, e cada um tem de estar disposto a sair dos seus próprios problemas. Não é do dia para noite, decerto um caminho de tentativas e erros, e compaixão pelo processo, mas com tanto que podemos fazer para deixar este pedaço de terra um lugar melhor valerá mesmo a pena deixar neste mundo a pior versão de nós mesmos?
Compreender a nossa jornada, não é romantizar e tornar as nossas experiencias desculpas para que o mundo nos trate de forma diferente. O mundo não quer saber.
E todos temos de deixar de achar que somos especiais.
O mundo não quer saber, e a escolha da energia que pretendemos ser cabe a nós mesmos.
E eu?
Eu prefiro continuar a tentar florir.



