Injustiça

HP

Harry Potter e agora?

A discussão da semana é a nova série Harry Potter, que sai no dia do Natal. Existindo um alvoroço, pois a JK tem sido uma grande ameaça para questões de género, essencialmente das pessoas trans. Quando o nosso ativismo passa a ser de consumo, onde separamos a ética moral do capitalismo? Por exemplo, somos escravos das plataformas sociais pertencentes a monstros muito piores e mais complicados que a JK, mas, ao mesmo tempo, compreendemos que, num mundo capitalista, todos fazemos parte do sistema.

Em mais jovem e até a uns anos atrás, sempre fui fã de Harry Potter; não me definiu particularmente, mas fez parte, assim como Grimm, Merlin e o meu número 1, Doctor Who. Quando via ou lia o Harry Potter, nunca pensei muito na autora; nunca lhe estendi a graça de pensar o que ela escreve de certo ou errado sobre minorias. Até chegar a mim as visões dela e afastar-me muito do que me unia a esta obra. Pessoalmente, acredito em separar a obra do artista, mas, da mesma forma que ver as obras do Hoody Allen me causam desconforto, a questão da JK também.

Heis onde a parte que não me sai da cabeça entra. JK tem dinheiro para esta e muitas outras vidas e vai continuar, com ou sem a série, a usar o seu dinheiro agredindo as pessoas trans. Quando o Hogwarts Legacy saiu, muito se falou em boicotar, que ia ser um falhanço; no entanto, o jogo teve um enorme alcance, com uma enorme margem de lucro. Portanto, é uma ignorância acharmos que esta série não vai rebentar com a escala de um dos projetos mais vistos; eu não tenho essa ilusão, até porque os protestos da internet estão na sua própria bolha.

Heis que entra uma questão ainda maior:
Ativismo de redes sociais pontual funciona?

Há quem defenda que todo o ativismo funciona, mas a questão fundamental é: se os movimentos conservadores e de extrema-direita se organizam disseminando vídeos e conversas nos seus canais privados do tão adorado Telegram e usam a edição para realçar gritos e fake news em massa, a uma escala gigantesca, o que acontece a todas as minorias quando o nosso maior ativismo passou a ser acomodado por detrás de um story? Um vídeo perdido em milhares de stories nossos a dizer “se vais ver a nova série do HP, não fales comigo”. Sabemos que quem quiser ver vai ver, muitos secretamente, outros dos que afirmam que não vão ver irão ver pirata; então, o que estamos a fazer para proteger as pessoas trans e outras comunidades se temos consciência que o boicote não vai atrasar nenhum investimento dela contra as pessoas trans? O que podemos fazer para criar um impacto de proteção?

Enquanto o ódio cresce em Portugal, levando o PSD e o CDS a ser cada vez mais um Chega disfarçado, vemos votos à esquerda a perderem-se, ninguém a conseguir concordar no mínimo e uma ausência de esperança incrível.

Então, hoje, no dia da Visibilidade Trans, a minha questão é: como estamos a agir diariamente para que estes pensamentos criminosos sejam abafados? Para minha tristeza, vejo muitas pessoas que desistiram do voto, enquanto é fundamental votar em alturas em que a extrema-direita cresce. Vejo opiniões de ódio não serem denunciadas, pessoas que não saem à rua, mas também não têm conversas difíceis dentro de casa.

Tenho consciência de que sair à rua e votar não vai resolver todo o sistema, mas é necessário entender as nossas armas de protesto, com organização e implementação de ideias e projetos, e temos de começar pelo menos pelo mínimo!

Na marcha deste domingo, falou-se da precariedade do trabalho das pessoas trans, da exclusão face à imigração, religião e cultura, do problema das estruturas da branquitude colonial.

Mas no que isto se traduz? Quantos de nós estão a confrontar os pais, líderes religiosos, professores, amigos? Quantos de nós estamos a investigar estes temas e a aplicar, nos nossos terceiros espaços, a comunidade necessária para compreender a inclusão? Quantos, em posição de poder, estão a dar oportunidades para trabalhadores LGBTQIAPN+? Isto não é um desabafo às pessoas que vi no protesto; eu própria só retomei protestar há poucos meses, mas a mentalidade de reação ao extremismo. Temos de normalizar ridicularizar e confrontar este crescente fascismo para que voltem para o buraco de onde saíram.

Aqueles que estão em casa a achar que é suficiente dizer, nos stories ou num vídeo, que não ver a série do Harry Potter, ok? E como vais ativamente aplicar mais? Todos querem ser aliados, mas de que vale uma aliança se ela for apenas performativa? Se não estás nas ruas, tudo bem; porque não estás constantemente a falar sobre isto em todos os espaços? Se não votas, numa altura em que a extrema-direita existe? Se não assinas petições, se não denuncias falas criminosas da televisão.

É quase como viver um episódio superficial do Sexo e a Cidade: o amigo gay é o extra que levanta a tua moral de aceitação, mas mal sabemos sobre ele; não sabemos os seus verdadeiros desejos, medos, não vemos os espaços da sua comunidade, as suas lutas. É o mesmo que o token do “eu até tenho familiares pretos”. E? O racismo, a homofobia, a transfobia não deixam de existir só porque navegas um ativismo performativo.

Não basta dizer que apoias cada um poder ser quem é quando todas as tuas ações refletem a exclusão das minorias. Quando chamas o outro de monhé, preto de macaco ou uma mulher trans de uma pessoa com quem vais fazer sword fight ou um homem de peruca, quando, no sigilo, fantasias com os corpos LGBTQIAPN+, mas, no dia a dia, pouco é feito para poder tratar todos com a humanidade e dignidade que merecem.

No final, eu não tenho nada a ver com quem decide ver ou não ver a série do HP, apenas que, enquanto estamos a anos-luz de nos organizarmos melhor para uma sociedade mais inclusiva, a extrema-direita cresce ao ponto de existir um presidente acusado pedófilo nos Estados Unidos e continuar a ser aplaudido, mesmo quando estamos à beira de uma 3ª Guerra Mundial gerida por ele. Nós acharmos que o ativismo de não vermos uma série é sequer uma gota de solução para esta transfobia que está a ser alimentada por um sistema ainda maior. Quando vamos começar a deixar a neutralidade de lado e a luta por direitos ser feita apenas pelas minorias incluídas nestas comunidades?

Como se, quando o mundo arder, não ardem todos da mesma forma.

Corpos acumulam-se debaixo da nossa consciência: vítimas de feminicídio, pessoas trans, inocentes bombardeados, vítimas de guerras religiosas. Até quando vamos fingir que isto não é connosco, apenas porque fazer o mínimo exige esforço, refugiando-nos na desculpa de que “não acreditamos no sistema”? Dizer “sou apolítica” ou limitar-se a ocasionais reels e TikToks alinhados com uma causa não é participação real, é distância disfarçada de envolvimento.

Quando vamos sair do ciclo de criticar o sistema e começar a aprender a construir estruturas próprias de poder, de resiliência e de voz? O que estamos, de facto, a fazer nas nossas comunidades para ajudar outros a questionar o ódio e a ganhar consciência? Como estamos a apoiar, na prática, todas as minorias?

De que forma estás a desconstruir o teu olhar sobre pessoas trans, para além do corpo, reconhecendo-as como seres humanos completos, com vida e quotidiano? Não te importas, achas errado ou assumes neutralidade? Apagar um ser humano é alimentar um sistema que apaga todos. A transfobia não se limita às pessoas trans, atinge também mulheres cis e homens cis com expressões consideradas pela sociedade mais femininas, que são cada vez mais agredidos por serem confundidos com pessoas trans. Hoje pode não te tocar, mas se amanhã alguém decidir que o teu corpo ou a tua aparência não encaixam e te atacar, será que só aí vais reagir? Só dói quando a violência chega diretamente a ti?

No fundo, o que quero dizer é que, mais do que decidir ver ou não ver a obra de um artista prejudicial, precisamos de criar espaços e dar voz a um contraponto, arte e vidas que realmente nos representem, devolvendo o ódio à sua irrelevância. Precisamos de desenvolver consciência politica, pois a bem ou a mal a democracia que temos é uma das nossas armas presentes.

Se ficarmos acomodados a um ativismo centrado no ego e na opinião sem ação, tornamo-nos apenas mais um sistema de performance, como um algoritmo, passageiro. E, nesse cenário, sim, acabamos todos por ser apagados, até ao ponto em que o “lado certo da história” deixa de existir.

Momo's avatar

Nerdhead com uma mistura de sushi comido em Mordor.

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