Maternidade fantasma.
Na perspetiva de uma mulher, eu não sei o que é criar um filho. Talvez nunca saiba; afinal, não foi uma necessidade prioritária. Mas esta maternidade é outra, onde nos criamos sozinhos, com papéis maternais vindos de onde menos se espera.
É alguma forma de Deus que ouve o nosso choro vazio e nos traz pessoas que se criam e se dão colo; que se ajudam para além de uma amizade, aconselhando, cuidando e fortalecendo as suas comunidades.
Não pretendo, de forma alguma, criticar uma mãe. Não tenho de defender igualmente. Muitas das crianças neste mundo não se encaixam e criam-se adultos complexos, muitas vezes desrespeitados, pois o papel de pai e mãe deixou muito a desejar, muito embora se fale do filho difícil, outras versões são tabu.
No outro lado da moeda, ali estamos nós, no beco, na beira da praia, a ser pais e mais emocionais, a superar desgostos, a dar colo, a entender que os nossos progenitores não nos conseguem estender empatia, porque, para eles, somos um desconhecido monte de ideias. Somos os maus filhos, os que não sabem amar, os preguiçosos, os difíceis, as constantes vítimas.
Mas, se ao menos conseguissem ver o quanto brilhamos nos nossos espaços, o quão felizes conseguimos ser nos nossos amparos, se vissem a magia através dos nossos corações… talvez entendessem, embora cada vez mais ache que não. Água e óleo não se misturam, e está tudo bem.
Para algumas das mentes diferentes, existe a sorte do resgate e amparo entre amigos, desconhecidos e novas famílias, onde são desconstruídas dores para que o pássaro possa, finalmente, viver fora da sua gaiola.
Mas este céu também tem a sua maldição: o outro lado da nossa moeda é sempre de uma pessoa que não foi o suficiente. Mas será justo? Sendo que, nos espaços certos, florescem conversas, maturidades, entreajudas infinitas; risadas no carro, o brinde no churrasco, um abraço espiritual, um choro de amores e desamores, a confissão dos pecados e das mentiras… não nos dão difamação, mas sim um “por que sentiste necessidade de fazer isso?”. É uma desconstrução de dores que não são daquela pessoa, mas ela ouve, desembaraça e ajuda a renascer.
Não é que eu ache que todos os adultos com múltiplas dificuldades possam simplesmente culpar os pais. Sou uma pessoa que acredita na nossa responsabilidade. Sermos adultos também é responsabilizarmo-nos pelos nossos próprios fracassos, independentemente dos nossos traumas.
No entanto, dou por mim a ver que, em muitos casos, a única forma de ultrapassar certas coisas é através das maternidades-fantasma, que vão muito além de um papel de amizade: pessoas que se preocupam porque não comemos, ou porque comemos demais; pessoas que tentam ajudar nas dificuldades de diversas formas, sem julgamento ou culpa; pessoas que nos proporcionam realizações únicas e ajudam a conquistar sonhos. Existem pessoas que carregam no coração mais responsabilidade emocional do que muitas mães.
Hoje em dia, mais do que nunca, é um papel importante. Com uma sociedade cada vez mais conservadora, que espalha insegurança a tantas almas diferentes, a maternidade-fantasma tem um papel social importantíssimo. Digo “fantasma” pois imagino esta troca de responsabilidade emocional como um fio de energia invisível que nos levanta e apoia, sem ocupar ou substituir ninguém, muito além das nossas responsabilidades de amigos.
Existem pessoas que nos são destinadas, que nos criam, que nos endireitam e acolhem, sem prazos impostos, apenas pelo coração. Pessoas que salvam. Talvez a verdadeira beleza esteja nessas pessoas que ocupam esta forma invisível de pais, mães, avós, acolhendo aqueles que, de muitas formas, são vistos como perdidos ou irrecuperáveis, cuidando e reerguendo sem olhar a quem, sem impor quanto tempo estarão juntas, apenas estando naquele momento necessário.
Isso salva.

