Emoções

Colecionadora de almas

Na ponta dos dedos colhem-se vontades, de tato em tato o mundo molda-se numa plenitude indiscreta. Cada um puxa um fio em busca da fita principal, a troca de corações, a coleção de almas.

Compreender o mundo talvez seja saber ler almas, almas que cabem na palma dela.

Ama, não sei talvez sim ou talvez nem soubesse o que é amor. Uma viagem cheia de amarras e conceções sobre o céu que cada um acha que viver deve ser, o medo sobre o que se deve pisar. Para uns a santidade, para outros o berço da descoberta de ver o mundo com outros olhos. O desejo, o grande plano do fel de um momento individualista, onde julgam que a fita agarrada é a essência da alma que se desenrola com a complexidade de mil sois. No sonho de outros é o futuro da humanidade.

Momentos turvos onde coisas se trocaram sem uma consciência do quê ou do que se perdeu entretanto, pois de tato em tato, estão correntes que arrastam, pesam deixam vultos que quase lhe sugam a vida, ou talvez lhe relembrem que o tempo é demasiado valioso para se perder em mero pó existencial. Afinal importante é abraçar os céus, não vaguear por pavimentos cinzentos a questionar o valor a gastar tempo que não se tem, a colecionar frascos repletos de fitas de almas de outrora, um dia estrelas, outro um mero alucinogénio, onde é difícil perceber o que é importa e o que não passam de muros que apenas tem se se saltar.

Na ampulheta do tempo o espaço temporal corre de acordo com o deslumbre que cada um deixa na colecionadora de almas. Fita por fita, história por história pequenos pedaços da fita dos outros são colecionadas em frascos que só serviram para preencher uma prateleira cósmica de autoconhecimento, em troca? apenas meras fantasias e ilusões, fachadas do que cada um queria ver. Uma linha invisível, mas que se sabe de trás para frente, pois a sabedoria dos colecionadores são as suas intenções.

Numa comparação gráfica, o que a colecionadora faz em terra, Calipso imita no mar, colecionando em lendas almas nas ondas com a mesma força com que um trovão parte os céus.

Mas o tempo, oh o tempo! Muda os olhos, frascos deixam de ser frascos, experiências são retiradas, com ímpeto ou talvez vazio os frascos são contemplados, são um desperdício, de tato em tato as amarras tornam-se em odio, existe uma vergonha por detrás do poder que se deu nas façanhas de colecionar, afinal o preço a pagar foi caro. No fim a colecionadora de almas não encontra uma fita que valha a pena colecionar por completo, afinal há tanto para ver. O mundo é vasto, mas o que é o mundo para quem é apenas um ponto nele agarrado a frascos numa prateleira, quando o coração quer explodir que nem uma estrela cadente e espalhar-se pelos cantos e recantos desta viagem.

Colecionar é real quando o mundo castra, retorce ideias e conceitos para definir palavras? Talvez afinal todo mal pode colecionar, resta saber o valor do que coloca nos seus frascos. Receio que a colecionadora não pensou bem, nenhum ciclo vale a pena quando não existe uma pura verdade associada, afinal que reflexo vê ela para não perceber o embaraço de colecionar fragmentos que são a personificação real de amarras no peito. Não resta grande alternativa sem ser mergulhar os pés no abismo, sem deixar que a pressa surja e se torne inimiga do cuidado.

Não vale a pena colecionar, desprender afinal é crescer, parar de ver um só um prisma, possibilitando um mundo de opções onde ninguém dita nada. É não ter medo da nuvem que pode ou não molhar, pois o que importa é o salto. O abraço da sensação que simplifica a essência humana, ficar à-vontade para quebrar vazos e reconstruir universos. Sorrir por existir, sentir na ponta dos dedos que tato a tato nos dedos colhe-se liberdade, carregando a responsabilidade de lutar por ela em cada grão do cosmo que a rodeia.

A colecionadora apercebe-se feliz, a única forma de ver as almas é através só espetro da sua. Com um plano de um amor completo, quebra-se a ampulheta, fragmenta-se uma coleção inteira de pontas de almas sem nexo, com ou sem valor, na verdade pouco importantes já são mera space dust. De rosa ao peito mergulha no abismo abraçada pela única fita que importa, a que cresce ao seu lado como duas fitas entrelaçadas numa trama que vira destino.

O mundo está aos pés dela, pois da liberdade…

«Os teus olhos são galáxias»

Galaxies for Qinni In memories of @qinniart who fought for her life and lived her best as an artist until the very end.by Wenqing Yan
Momo's avatar

Nerdhead com uma mistura de sushi comido em Mordor.

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