Uma carta de amor
Talvez fala-se muito pouco sobre a quantidade de pessoas que vivem com main character energy. Embora a nossa perspectiva seja sobre o que está por detrás do nosso pequeno cérebro, a vida é muito mais que o nosso quadrado. Histórias são termináveis e não há problema nenhum nisso. Tenho sérias dúvidas que a minha saída da vida de alguém tenha feito alguma diferença, cada um seguiu o seu ciclo e a sua existência sem qualquer problema. Uns com menos dores, uns com mais, mas a vida segue.
Por isso a arte de ir embora é tão importante, saber largar sem qualquer problema, talvez porque a pessoa se cansou, errou, precisou de se renovar, ou apenas escolheu algo melhor, há tantos motivos para encerrar uma história que realmente é irrelevante. Ninguém é importante ao ponto de ser insubstituível, mantenho no entanto 0 identificação com pessoas que gostam de trazer a sua main character energy estendendo as coisas a muito mais do que realmente são.
Não me interessa que seja posta num pedestal de merda, as minhas costas são largas para isso. Não me façam perder tempo que não tenho. Não me deem importância, porque o bom de se estar bem sozinho não tem preço. Se todos sumissem, o céu iria continuar a brilhar como se todos os dias fossem iguais. No fundo não quero saber se as pessoas são más se são boas, eu troquei histórias com elas, o fel que sai do meus lábios é só esse, no momento em que fechei a porta, a chama apaga-se.
O meu desejo é que as pessoas se preencham longe de mim. Enquanto estão a perder tempo a dar importância que eu não tenho, reflito, de todas as pessoas que escolhi retirar-me da situação, talvez numa outra realidade fossemos felizes, why? Porque não tenho muito tempo a perder,sem confundir as coisas os meus desabafos foram só isso desabafos, ao fim do dia não é o meu percurso, os meus erros, medos, acertos, mentiras, sorrisos que farão diferença, todo o ser humano tem complexidades, cada um adulto é livre de escolher o seu basta and that’s okay.
A arte de ir embora é compreender que é natural, não é sobre heróis e vilões, há coisas que vão ser ditas, porque o coração está ferido, eventualmente portas fecham-se, a vida segue. E meu deus que vida! Há tanto para fazer! De que vale perder tempo com quem sabemos que as portas já não se vão abrir? Se nisto a que chamam vida já abdiquei de pessoas com as quais passei os meus vícios, traumas, medos, a pior versão de mim mesma, pessoas com as quais se viveram coisas tão intensas, complexas que sufocavam a existência humana, o que é abdicar de uma pessoa fora desse contexto? Migalhas.
Não posso mentir que esteja a sofrer, verdadeiramente a sofrer por alguém sair, quando não tenho coração para isso, nunca escondi que sou fria, continuo sem entender porque depois há uma atitude de surpresa do lado da minha personalidade que abandona. Não há pessoa que entre na minha vida mais a sério que eu não diga que se eu me cansar eu abandono e não sou simpática depois disso. Não menti, não ocultei, agora vamos todos nos fazer de surpresos? Criar vilões?
Só imagino se fosse pela mesma via, se um dia pega-se no gatilho da insignificância de achar-me no direito de fazer o mesmo que os outros fazem, destruir lares ao ponto de se odiar cidades. Sei o que isso é mas não sou mais essa pessoa, 2009 foi o ano que me disseram tanto a frase destruidora de lares, tal como só se estraga uma casa, foi quando eu percebi que os meus próprios traumas transbordavam ódio ao ponto de magoar vidas permanentemente. Não tenho mais tempo para isso, nem sequer conheço ninguém há mais de uma década que valha a pena eu perder o meu tempo dessa forma tóxica.
Os meus momentos? Não são teus, a minha vida não é tua e vice-versa. Desejo apenas sentir-me viva por fora, longe desse amor, longe da sombra, longe da versão dos pedaços em que tentaste desfazer a minha alma, manchar o meu lar, estranho não é? A mente serve e de repente é insignificante tal lar construído. É engraçado como me sabotei a tornar um coração de ferro em vidro nos momentos em que precisava manter-se fria e distante, uma e outra vez, quebrando-o sozinha em frente ao mesmo lago do meu reflexo, espalhando pedaços pelo universo, montando tudo, cada vez mais incompleto. O que não esperava talvez, fosse no momento em que mais fino fosse o meu vidro mais fosse testada a sua quebra.
Isto não é sobre ti, nunca foi, é sobre a audácia do ser humano de não se colocar no seu lugar. Encarares as minhas dores e desabafos como linhas de guiões de novelas, enquanto encarei os teus com a prioridade de levar uma bala, estranho não é? Cultivares no teu jardim pensamentos que trocarias a tua alma a qualquer segundo que fosse se significasse a paz de outrem, é tão estranho desejar que alguém se encontre, seja feliz de uma maneira tão profunda e do outro lado há distorções, incluindo até as tuas palavras. Isto é sobre ver o mundo de alguém ruir, em pontos tão complexos que doi para lá de facas que alguma vez vais sentir, para lá do que o teu cérebro consiga conceber, um poço de alcatrão tão profundo que o teu coração nunca chegará sequer a sentir o sufoco de perto, o pânico que doí de tal forma que o teu corpo se quebre de joelhos perante o mundo, sem perceber nada, como curar, como viver e mesmo assim do outro lado distorcerem na infantilidade de teias enredos infinitos, esperando nenhuma consequência, escolhi sair para não sofrer, tendo de saber no dia de hoje a puta da audácia de ‘’nunca esperei que a Mónica tomasse uma atitude dessas’’?
Oh honey… O que querem de mim? Que despedace o meu coração como uma bugiganga para satisfazer mentes iludidas? Já me enterrei a este ponto nem me importo se sou má, o que querem de mim? Uma marionete para tempos de aborrecimento? Há coisas que não devemos brincar se não temos a capacidade de ver os nossos próprios monstros. Porque acredita eu sei as minhas merdas, sei os demônios que me fazem tremer só de chamar o meu nome e tu não és um deles, nem tens armas para me fazer um deles.
Não sei porque se queixam quando saio, se nada perderam, espalham a indignação das minhas atitudes com 0 coração para se verem ao espelho, se conhecerem e perceberem o poço de si mesmas, porque importa eu sair? Que poder é esse que eu tenho de destruir o que nunca foi meu?
Se eu me perdi? Foi em mim, não houve relacionamento que não saísse dele pelo meu próprio pé querendo eu ou não, amizade que não corta-se o cordão com a minha própria faca, não houve pesadelo que não enfrentasse sozinha, nem lágrima que pusesse no ombro de alguém, nunca ninguém sofreu o meu fardo sem serem desabafos. Porque EU importaria? O meu coração é um monte de setas, a minha alma por vezes um poço sem fundo. Cada sofrimento meu, lutei nos meus vícios, da mesma forma que agora descarrego provavelmente na comida, o meu sofrimento não é o teu, nunca foi. Ninguém o sofreu, as lágrimas em seco que digeri não foram vistas por ti, porque importaria eu ter saído? Porque sou uma mentira tão complexa de vontades de provar o certo? O meu lar não era o teu, mas sim carreguei um pouco das dores e do lar dos outros no meu jardim, abdiquei de dias dos namorados, abdiquei de noites, madrugadas, noitadas, para que no meu jardim crescessem espinhos e no de outros flores. É um direito meu abdicar, ter o direito de me deixarem partir.
Cravado na minha pele com uma tinta invisível, num laço inquebrável está o meu direito de sair. Nunca me importei muito se sou vista como boa ou má pessoa, que enredos fantasiosos sejam criados a meu respeito, apenas que o meu direito de calmamente ir embora ser respeitado, não há um enredo, não há after, há um vazio e um recomeço. Apenas isso, não há vingança porque se o amor acabou estamos a vingar o quê? Pó? Não existem surpresas, inquietações e cartas no baralho, pois o nosso baralho já ardeu.Na perspectiva do universo sou apenas uma formiga, então porque importaria? Se pedi tão pouco e os pedidos foram sempre tratados como inconcebíveis, tornou-se um direito meu sair, tenho uma arte na minha vida, é não me importar em ser dispensável, então usa esse carimbo, transforma-o em pincel, esbanja a minha insignificância até que as tuas pinceladas sejam alzheimer, o meu rosto engolido pelo tempo e a minha existência uma memória vaga.
Mas não questionem com audácia a minha escolha de sair, posso ser perdida em muitas coisas, fragmentada em muitos sonhos, falha por mil universos, mas não na certeza que quem escreve a minha carta de amor sou eu. Nada é como antes, és uma causa perdida, eu e tu, somos uma causa perdida. Costumava desejar sempre que pensei em cada situação – que sorte tenho eu por ter-vos- sorrindo, viveram-se amores, momentos, amizades. Em nenhuma alma vi um erro, vi os nossos erros, havia duas partes, cada uma com a sua corda e limite, uma e outra e outra vez, mas as cordas ficaram só do outro lado e eu sem nenhuma de tanto emprestar a minha. Isto é uma causa perdida. Nada é como antes. Isto não é sobre ti, é sobre um conjunto de pessoas que usaram o teu rosto, diferentes situações a mesma vitimização, sempre a vi, mas as minhas costas são largas, as pessoas mudam, pensei eu, pois já me quebrei e mudei, agradeço-te hoje por me fazeres ver que nada é como antes, tu e eu somos uma causa perdida, talvez estivesses a pensar em ti o tempo todo, ou numa versão de mim que nunca existiu. Talvez eu comecei a ser um pouco de ti e das tuas intrigas, não por tua causa conscientemente, mas porque errei em absorver os teus dramas, errei em alucinar as tuas verdades, encobrir os teus erros incluindo cometendo-os, mas perdoo-me errei por estar fraca, confusa e manipulável em só conhecer a tua versão, não era o momento de eu conseguir ter clareza e apoiei-me em acreditar em ti porque amei-te incondicionalmente como se de um filho se trata-se, errei, mas já fiz as minhas pazes e pedi as minhas desculpas a todos os que injusticei, a ti não, a ti nunca! Porque de todas as almas neste universo a que sabia que eu estava tão frágil a ponto de quase perder as forças eras tu, como pudeste para justificar sentires te bem abusar de um poder tal como todos os outros, com a agravante de me conheceres tão profundamente?
Usas-te o mesmo rosto que outros no meu passado, fazendo-me acreditar que todos os outros te erraram, todos os outros te maltrataram, iludindo-te a ti mesma que essa é a verdade, esse é o teu dito ranço. Bolas como eu fui cega, dei-te um palco que não merecias, tem sido sempre assim, todos os outros estão errados, estranho não é? Seres tamanha perfeição. Todos os outros estão errados… Quando falo das pessoas do meu passado independentemente de tudo sempre disse que errei muito, por isso não somos o mesmo, não procurei ser perfeita, posso até ter exagerado nas culpas que pus ás minhas costas, pois chama-se não abusar do poder da lealdade, da amizade, do amor, mesmo que se sigam caminhos diferentes.
Há pessoas que me magoaram de formas tão complexas que sofro até hoje, mas sempre achei que não fui correta também, tu hoje passaste a ter o rosto de uma dessas pessoas, mas ao menos fizeste-me terminar esta história. Nada é como antes, eu não sou mais responsável porque já me martirizei e evolui com os meus erros, eu fiz a minha luta, para hoje conseguir ser a mulher que sou, nada é como antes, o meu passado não tem mais poder, e tu não tens mais espaço na minha existência.
Contigo aprendi muito, não nos quase 10 anos, mas desde que escolhi sair, refleti, não te devo nada, para ti pela primeira vez escolhi sair com uma consciência tranquila, em paz e indiferente. Esta carta não é sobre ti é sobre crescer, sobre trauma, sobre self hate, sobre como não importa usarmos nenhuma das nossas fraquezas ou vivências como manipulação para outros, temos de ser capazes de assumir os nossos erros. Ensinaste-me que as pessoas não são peões, ensinaste-me que um carácter sem capacidade de mudar, constrói um monstro a roçar a neurodiversidade de uma forma quebrada, com uma forma de viver tão incompleta. Reforçaste me a ideia de que quando não nos conseguimos gerir, temos de procurar ajuda psiquiátrica profissional, não nos melhores amigos, e em enredos vazios para não encararmos os monstros dentro de nós. Saio disto uma pessoa melhor e futura amiga mais atenta aos sinais. Falavas como se fosses tu, mas na realidade há muito que parecias outra pessoa, não só a superfície, mais profundamente, uma alma danificada, controversa, que não se conhece, mais complexo ainda, que não tem a capacidade de mudar. O que somos nós se não somos capazes de assumir a nossa arrogância, os nossos erros, a nossa capacidade de distorcer as coisas senão pessoas a precisar desesperadamente de ajuda profissional? Talvez daqui a muitos anos se não mudares, um dia vejas ao espelho o que eu vi, compreendas em quantas realidades estás repartida e possas recomeçar do 0 com a mesma força que me estás a dar agora para seguir em frente, conhecer-me, resolver as coisas que estagnei na minha vida nos últimos 7 anos por medo, incapacidade, de tal forma que estava a dar os primeiros passos para uma recaída de me tornar uma pessoa amarga, ingrata, mentirosa e entitled. Não me importa o que achas, o que pensas de mim, que leias, ou não isto, quem vai ler, não é sobre ti, é sobre os meus sentimentos, sobre como ter coragem de enfrentar o quão mal estamos a viver e como mudar, não te ajudei em 10 anos, mas porque não é sobre isso, as pessoas deveriam mover as suas montanhas, não criar raízes, a vida não é só isto lembraste? A vida não era só isto, e nós… Fomos só isto, pequenas, erráticas, contra o mundo, havia sempre alguém errado a nossa volta não era? A única diferença é que eu por sabotagem, tu por ausência de caráter e capacidade de autoconhecimento.
Não é fácil para mim escrever estas coisas, mas tenho de ser verdadeira sobre a nossa mesquinhez, por pacto, sempre te disse que não diria o que gostarias de ouvir, mas o que sentia verdadeiramente, e isto é o que eu sinto, fui desatenta demorei a aprender, mas ao menos agradeço por me fazeres ver a vida de outra forma.
Por isso mais uma vez que o fel do meu veneno sirva para demonstrar que passam-se os meses, somam-se os anos e burra penso eu de pensar que as pessoas mudam. Obrigada por me provares errada, as pessoas mudam se quiserem mudar, se forem corajosas, e isso não é um processo fácil, é para poucos, a tua atitude fez-me um dejavú profundo, não havia nada ao meu alcance para ajudar a existir um desfecho diferente, sem ser a submissão a tua maneira de ser. Se és a perfeição de desculpas esfarrapadas sem sinceridade porque não tens coragem de ver como trocas almas convenientemente, isso não é problema meu. Se da minha boca sai veneno, que cuspa veneno forte o suficiente para encerrar este assunto. Porque não é sobre ti, não é pelos cigarros já trocados, pelas fraquezas, juras e paixões quebradas, não é sobre as noites vividas, as diretas, que até parecem pertencer a uma outra vida, a uma outra Mónica, é sobre a venda na nossa própria alma a uma vida cega de erros, não os quero mais, não sei o que vou ser, mas não quero isto, desejo paz, sendo uma pessoa melhor.
É sobre amor, não pense o mundo que não errei, mas já sofri que chegue os meus erros, estou pronta para enterrar-me e renascer, porque se já mudei algures no meu passado, sou capaz de mudar muito mais. Não irei perdoar desta vez, no entanto, foi diferente, o que é chamado de excomungar, fui eu a explicar porque me retirei da situação e estava magoada, porque não falaria mais. Pedi ao contrário do que se pensa imparcialidade e calma a compreender a situação, nada mais disse sem ser ler palavra por palavra o que escrevi. Jogos mentais a uma hora destas é de uma dimensão que não me interessa, sou tão seca como sempre disse, qualquer um de vós se estivesse à minha frente não iria sentir nada. Não desejo nada mais do que o melhor, mas não cubram charadas e perguntas inocentes como quem não quer a coisa como se não visse através da bullshit, de tentativas de criar ainda mais dramas. Não há mais dramas, houve um antes, um encerrar e um seguir em frente digerindo as emoções e lições de tudo isto.
No fundo eu liberto-me da obrigação de te ter na minha vida, porque posso e porque quero. Faço esta reflexão não para ti, nem para ninguém porque o que há a dizer profundamente sobre isto eu já te disse, se não compreendeste, o problema não é meu. Faço isto porque gosto de cuspir o meu cérebro em palavras, para processar o que sinto, para compreender onde estou e para percepcionar os puzzles à minha frente. Para poder voltar atrás, ler-me e perceber como nunca mais cometer este tipo de erros, e focar-me a ser uma pessoa melhor.
Encaro com facilidade a minha insignificância, escrevo esta carta para mim, para me lembrar, não há gaslight que possa ser feito que faça parecer a minha decisão errada. Pois mereço isto, mereço a minha paz.
Desejo que possas ser muito feliz passado meu, complexo com mil rostos, despeço-me, porque não me identifico mais contigo, nunca te tratei com a merda do que recebi. è libertador virar as costas. Obrigada por após 17 anos de sofrimento, tu fazeres-me sentir que perdi tempo com coisas que tornaram a minha vida tão vazia que não havia como curar. isto tem sido um embaraço, para eu seguir em frente com toda a minha vida era preciso escrever isto, libertar as amarras, senão o meu futuro também nunca iria chegar.
Lá atrás, num ponto fixo no tempo alguém sábio uma vez disse, já que estás na merda, chafurda-te nela, então graciosamente agradeço-te passado meu, por me estares a mostrar os passos seguintes para sair dela.
Possa cada um seguir o seu trilho sem tentar responsabilizar a existência alheia pelos erros do nosso caráter, ninguém é personagem principal porque nem somos tão importantes assim, no fundo ninguém quer saber, por isso mais vale não perder tempo em enredos ilusórios.
Nascemos e morremos sozinhos e liberdade é a consciência plena dos nossos defeitos. Curioso como este é o texto maior que alguma vez escrevi num blog meu, faz sentido, é uma despedida, uma catarse, uma reflexão, a carta de amor que muito merecia, porque sinceramente, se eu quero tanto que os outros mereçam melhor, também mereço atingir esse melhor.
Esse melhor começa agora, um brinde ao futuro.




Um comentário
brendha
eu me casaria com teu texto, parabéns moça!!