Cegueira
A roda continua a girar e as pessoas fazem parte das histórias umas das outras até nas despedidas.
Mas quando toda gente sabe que não podemos mais perseguir o que era suposto, quando não fazes o esperado? É uma linha difícil falar de amor quando o que se ama representa algo que não compreendemos. Quando somos um espelho de descartes, de um apêndice que se pode cortar e continuar como se a nossa existência fosse uma mera vantagem de ser invisível.
Porque não és isso tudo. Porque és mentirosa, uma concepção de inverdades Má adolescente, má pessoa, não és consistente, não és boa esposa, não és boa filha, falas demais, falas de menos, és instável e passível de ser amada um dia quem sabe quando encaixares na concepção do que eu acho certo ser.
Tens de aceitar as minhas percepções mesmo que te magoem, mesmo que te descaracteriza porque além de nunca teres sido suficiente não existe espaço para tua revolta, porque tu não sabes, porque tu és a mais nova.
És o vômito social de uma alterna esquerdalha que não sabe viver a vida como deve de ser.
Uma vítima ou uma perturbada.
Mas meu amor onde dos teus olhos saem meias palavras de um amor que não se vê. Do errático veneno que eu represento sei ver que eu não sou para todo mundo, e não há problema, não quero ser suficiente para ti, eu quero viver, quero amar, quero melhorar quero sentir na pele todos os desaforos do mundo e sofrer com ele toda a explosão complexa de ser humana. Não é sobre ser vossa é sobre ser respeitada, porque de segunda a domingo também respiro, a minha pele também sangra, os meus ideais quem escolho ouvir quem me entende e onde eu choro é tão válido como qualquer ideal tradicional, eu não sou nem mais nem melhor, era só diferente, e teria sido mais belo teres dito que não sabias amar cactos pois os espinhos magoam-te do que cortar tais espinhos e fingir de mim um margarida.
A dor, a diferença nunca foi sobre um dia ser-se mais ou menos semelhante, nunca foi sobre encaixar, sobre estares do meu lado ou contra, as minhas versões podem ser tão irreais como a tua fé do meu errado, mas são as minhas versões.
A cegueira da tua razão fez de mim invisível. por uma cor de cabelo, por uma opção de voto, por amar independentemente do amor do outro, por inventar, por viver, por errar, acertar. A tua cegueira à minha voz fez te pensar que as amarras da minhas existência se prendiam a de certa forma ser a que sempre foi diferente, a mimada.
Tantos anos cegos sem ver quantas pessoas amei, quantas aventuras vivi, quantos diálogos salvaram, tantos anos cegos que não foi visto que mesmo não sendo minha opção a maioria dos erros eram vagos comparando que eu era a menor da situação. Eu fui a má até aos meus 33 anos. A que é amada mas não o suficiente, a que pode ser abdicada porque não corresponde a ideia que criaram do que eu deveria ser.
Mas acho que está na hora de tirar o pó do meu microfone, e relembrar-te de todas as vezes que ninguém estava lá. todas as portas vazias onde a resposta foi eu fiz o melhor que pude mas os meus erros foram és má.
Isto é uma catarse geral de todas as vezes que tive de sentir, não sabes do que falas, mas tu não és adulta, mas a tua opinião é infundada, mas tu tens a mania, tu gostas de te fazer de vítima.
Olha para a hora uma vez na vida, persistir no erro é masoquismo e às vezes os esqueletos que temos no armário dizem muito mais sobre nós do que o que dizemos dos outros.
Da mesma forma que eu não pedi vir a este mundo complexo e quebrado, também não pedi para ser como sou. Mas há uma coisa que eu posso escolher, visto que não consegues por um momento colocar-te nos meus pés porque sempre que o peço a questão é sobre tu não te colocas nos meus.
So guess what… Desejo nada mais do que amor, risos, memórias lindas e felizes, mas que eu não caiba nelas. Que o meu jeito de ser não passe no fel dos teus olhos e das tuas memórias pois se não coube nas tuas caixas, cabe na de outros que me dão a mão e fazem ver que o mundo é muito mais sobre se o meu corpo e forma de ser representa o que procuram.
Por vezes o que para uns é um monstro, para outros é uma lufada de ar fresco. Salvação é individual, neste sentido sou responsável apenas pelas minhas atitudes e elas deixam-me dormir descansada. Meu peito bate por outras coisas, meus sonhos são outros. Que teu mundo se mantenha cheio para que nunca te lembres do meu por muito que a idade se acumule, pois eu jamais irei esquecer mesmo que perdoe, que limites foram ultrapassados.
Ainda é cedo amor? Mas se te demorou tanto tempo para me veres. agora prefiro que te mantenhas na tua cegueira e me deixes ser o cacto que eu sempre quis, cactos também são fundamentais.
Faz-me invisível para que eu possa ser feliz sem os olhos do teu descaso.
Afinal o maior acto de amor é deixar ir.
(texto não revisto estou com preguiça)


