Manifesto da Melancolia
Manifesto da melancolia
Dor
Passamos uma vida inteira sem perceber a barreira entre a dor e a melancolia, talvez por saudosa palavra queremos crer que não se cruzam, pois ninguém gosta de assumir a dor das suas melancolias.
Dor, tão simples mas tão ignorada, todos queremos o último grito para esconder ou mascarar esta parte.
Hoje em dia a moda é a cura, face a esta pandemia que colocou os nossos medos mais primários de fora da caixa, chovem gurus, uns atrás dos outros nesta cultura de cancelamento. Todos os dias a uma trend milagrosa para poder colocar em ordem as ramagens de imperfeições do ser humano.
Mas afinal o que é ser imperfeito?
O que é a dor? A que fere, consome, trai, cria camadas complexas de ligeiras sensações, que nos transporta e faz sonhar outras versões melhores de nós mesmos, cria muros impenetráveis de pré julgamentos, sejam estes internos ou externos.
Porque dói?
Tantas definições para uma só palavra. Sensações complexas debaixo de uma alçada. Como podemos nós filosofar? Como podemos encaixá-la numa dita cura? não será ilusório o debate interior ou a terapia exterior a algo tão íntimo? Até que ponto interferir com o processo natural da evolução da dor de cada um, retira aquilo que temos de enfrentar?
Somos feitos de mundos, sempre seremos. Esta infinidade de pensamentos não deveria ser cortada. No entanto, a dor mal gerida, pode magoar o próximo. Deixar cicatrizes que se transformam na incapacidade de ser um cidadão minimamente funcional dentro do aceitável face os dogmas sociais e da lei.
Não deixa de ser extremamente curioso que a maior dor, não são acontecimentos específicos. Apenas pequenas sensações, momentos em diversas situações, como se fossem pequenas capsulas de ansiedade compactada ao extremo do tamanho de um pequeno comprimido. Um fragmento microscópico. Aqui entra em ação a sensibilidade de cada um, como se fosse uma escala. Quanto maior o arrepio, pior é a sensação atrás da orelha, para nos atirar à cara o pior abandono, medo, solidão independentemente das conquistas nesta vida.
Nascemos com um nome e uma realidade atribuída, esperam-se papéis, comportamentos desde tenra idade. Ao não conseguirmos entender tal papel, falhamos na performance. Como se a cortina do nosso espetáculo fosse uma ruína obscura onde todos buscam dedos para a categorizar. Pensamos nós que as palavras são o que ferem, mas não existe maior espetáculo que a dor gerada ausente da sensação de palavras. Voltamos aos fragmentos que não podemos explicar, sempre reconhecidos, afinal são as portas onde estivemos vezes sem conta, um flashback do início ao fim dos nossos dias.
Não poderia parar nestes dias de névoa , deixando-me confundir, pois em diversos pontos a dita conquista pessoal ultrapassou todas as minhas expectativas de onde chegaria. É inútil no entanto escurecer as cortinas do que dói, sem deixar transparecer a luz do que está do outro lado.
É o que dá ter um cérebro sensível, um remoinho de um puzzle incompleto, ou será um ego de achar que por cá os fragmentos passam de uma forma diferente que os corpos lá fora?
Corpos cada um com a sua complexidade, mas não é a minha, o que nos sufoca não é o mesmo, o que nos demoniza não roça as mesmas paredes. Todos com sangue nas veias, mas o que nos faz sangrar não é o mesmo.
Não entendo a dor… saudade? Não! Dor, não há momento nenhum do que já foi, que tivesse de ser novamente, o antes não é o agora, o fel que molha os meus lábios não tem a mesma doçura do que já foi.
O fel de agora? É quente, meu, mas às vezes quem nasceu para observar não sabe o que fazer perante a realidade de ter de agir. Não é agir como a vivacidade da cor de uma fotografia, não é viver para não ter tempo para estas ditas coisas. Esse viver é uma distracção tal como a cor, para as mentes repletas de observações por explorar. Para agir é preciso toldar tais distrações. Impedem-nos de conseguir sentir a plenitude do que está cá dentro.
A dor ?
Impede-nos de saltar para sensações e fragmentos de um fel que parece tão doce que dá vontade de reviver, mas não nos banhamos nós já nele para perceber que não nos deu as respostas que procuramos? A dor impede que a melancolia se torne real. Existem vazios que a nossa mente insiste em atribuir a desculpa e melancolias. Uma ilusão de lembranças inventadas pela vivência e pelo tempo, mas em frente estão as verdadeiras respostas e na melancolia já sabemos a realidade.
Não é isto que eu procuro.
Esqueçam as desculpas, não vamos parar e colocar o típico entrave – se fosse com a maturidade que tenho hoje – são as promessas vazias de um diferente intangível. A humanidade é a definição do erro, o que nos move não é o erro? Erro cíclico que mesmo com diferentes circunstâncias a realidade seria a mesma, uma humanidade mesmo que diferente com o mesmo erro e dor nas suas entranhas.
Então se já provamos o fel de tal erro, porque não descobrir outro? afinal o horizonte das portas por abrir traz sempre a doçura do desconhecido. Existe sensação melhor que sair do expectável?
A Melancolia é a fraqueza de seguir em frente, o desconhecido é assustador para quem não sabe nada do palco da vida. Para quem quer partir o cenário e correr de pés descalços para a sua desconstrução, seja ela feita de suor e lágrimas. O palco não é meu, o tempo é meu, mas o palco não, a humanidade construiu, atribui-o a minha pele, mas não é meu. O conformismo da representação não pertence às mentes inquietantes.
A vida não é nossa até assumirmos todas as peculiaridades sem lhe virarmos as costas. Não há cura, não há terapia, para a descoberta, isso inclui a dor.
A questão ao fim do dia é quantas vezes vamos baixar a cortina melancólica, completamente ausente de respostas, com a desculpa de nunca mais lá voltar? Quando vai deixar de existir cobardia? Para perceber que não são egos, não são complexidades que cabem em outros corpos. São nossas, ter a coragem de rasgar os paradigmas da nossa existência para descobrir as respostas.
Chegar sem medos de olhos abertos e perceber.
Isto. Isto é o que eu procuro.
Isto é o que é o meu corpo.
Esta é a minha dor, mas não melancólica, e sim calos de persistência para chegarmos a essência do que faz sentido sem distrações.

