Divagação

Conto de fadas

Estranho a força invisível de nos preocuparmos com coisas que não existem, fantasiamos mil e uma formas de sair de situações que nos incomodam que apenas existem na nossa mente. Isto porque o que associamos ás memórias criadas baseou-se no facto da outra pessoa se preocupar minimamente connosco. Embora se saiba que foi apenas de um lado.

Os anos passam e fica um pó dessas memórias, das perdas, do sufoco, sabemos hoje conscientemente que amamos coisas sozinhos, muito do sofrimento foi causado por querer amar o que não existe.

Amar contos de fadas é tão ilusório. Duas pessoas diferentes, doridas, que achavam ter a capacidade de retirar uma da outra algo. Compreendo completamente que na altura parecia que eras tudo e eu era só uma interessante experiência.

O problema é que procuramos no vazio fazer as ilusões ganharem formas de sentimento, amor, prazer, amizade, luxúria entre tantos outros, mas é insustentável que nem um castelo de cartas que se vai desfazer ao mínimo teste da vida.

Nunca nada seria o suficiente.

Uma das pessoas não era interessante o suficiente, a música que ouvia não era boa, a sua arte não deveria existir, a mente não era boa.  Um objeto apenas, uma perola perdida no tempo, encapsulada na fantasia do que se queria naquele momento.

É esse o problema, não é? Pensar que uma louca complexa, mas simples moça é tudo aquilo que queremos, mas no fundo não queremos o pânico dos seus traumas, o problema dos seus medos, nem olhar para os pesadelos arrumados tão categoricamente em gavetas.

A arte transforma-se num fardo e o veneno das tuas fantasias torna-se tão real que tens medo de dar o salto e quem sabe sequer te apaixonares por aquela louca criatura. Porque apaixonar por instabilidade que te faz sentir estável é algo que nunca foi a intenção. A intenção era usar as estrelas como veneno de rebound em veias que sugaram tudo e deixaram nada.

Foi o que senti, senti que era nada, não sei o que estava a fazer e mantive pessoas que até hoje me pudessem causar algum caos pois sentir caos era melhor do que não sentir nada.  Lembro-me tão vivamente o facto de todos os meus universos não serem suficientes e ter ganho a coragem de explorar um outro onde não eras possibilidade.

A realidade é que também não te queria. Nunca quis, quis a ideia de ti, a possibilidade de poder entender uma parte de mim, parte essa que me custou caro. Muito caro.  Depressão e ansiedade foi o que se seguiu porque nada me fazia sentir tão mal do que ideia do teu fantasma. Tive flashbacks da tua existência, pensei que essas memórias fossem um reflexo onde talvez numa outra realidade eu te fosse achar interessante o suficiente para valer a pena lutar por. Mas eram só lembranças do que perdi, de cada pedaço meu que arranquei e enterrei para tentar viver a ilusão de existir ao teu lado.

Mas a realidade é muito simples, tu não eras meu, e eu não era tua. Foste uma passagem numa fase onde eu mal queria existir. O que perdi não foi sobre ti perdi-me por perder a coragem de lidar com a realidade da minha existência, e a alegria da vivacidade que carrego cá dentro. Amar tão brilhantemente e saber sentir tão profundamente do bom ao mau, pois afinal como diz o Gege, ‘’O amor é a maldição mais distorcida de todas.’’

Contos de fadas…. Ilusórios. Eu mal me lembro de ti, mas lembro-me da ideia de precisar de algo. Sei, no entanto, que se pudesse o meu caminho não se teria cruzado com o teu. Foi um desmoronar que não valeu a pena numa altura muito complexa de mim mesma.

Engraçado como tenho tentado enterrar-me ao longo destes anos e parecer a pior versão de mim mesma. Não gostava de chamar a atenção e fui me soterrando na minha invisibilidade.

É engraçado como certas pessoas conseguem ter um impacto tão profundamente definitivo, mesmo se não for por elas, mas pelas circunstâncias da altura.

A vida foi bondosa comigo mesmo assim, estes últimos sete anos têm sido complexamente caóticos. No início pensava que era karma, hoje entendo que a minha saúde física e mental ter ficado tão má foi tão simples como um travão para finalmente acordar e continuar na minha jornada de amor, e voltar a rodear-me de pessoas que valham a pena.

O que fui? No fundo não sou mais e a dor não é a mesma, é apenas uma memória. Uma sensação de arrepio estranha em ocasionais dias em que temo não ter a coragem de olhar para a cor mesmo ela sendo uma distração.

As coisas que descobri da humanidade não têm uma explicação palpável, as nossas complexidades fazem realidades tão únicas, hoje a alegria, dor, perda, tornou-se diferente. Aprendi a amar muito mais que o ser humano, mas a compreender a dor de saltar e querer comprometer-me em tudo que não tive coragem outrora. Sou amada em todo esplendor da palavra de formas que nunca ninguém viu, mesmo sabendo os defeitos ou dificuldades, o bom é tão… Genuíno, com um companheirismo onde todos os gostos e maneirismos são respeitados e apreciados sem serem um motivo de objetificar fantasias e ilusões. Poder amar e ser amado simplesmente por fazer sentido, por a vida ser melhor ao lado um do outro. É essa a verdadeira raridade da vida.  Permiti-me a mim mesma ser vista, amada, validada não perante os moldes e fantasias de ninguém, mas perante a crua realidade da minha existência.

Houve tempos até bem recentemente que viver deste lado foi sobre lidar com os meus traumas reais e imaginários. Sinceramente agora é sobre tirar do fundo do poço toda a alegria, arte, letras, batons, toda a complexidade e dimensões que foram apagadas um comentário e ação de cada vez.

A questão simples é que nunca coube num espaço, como muitas outras mulheres também não cabem. Ficamos tão perdidas em nós mesmas a cada rejeição do que a nossa carne representa, acabamos por procurar em várias pessoas um processo equívoco de existência.

Foste a minha maior desilusão. Não por ti não por nada concreto do que foste ou possas ser hoje em dia. Mas porque foste a pessoa que estava ao meu lado na minha fase mais perdida, imatura e pouco confiante no facto de sim eu ser uma mulher estranha e caótica sem haver qualquer mal nisso.

A escolha da felicidade independente das nossas diferenças bate vezes sem conta na mesma porta, mas é preciso que exista a coragem de a abrir. A coragem de transformar veneno em fel.

Momo's avatar

Nerdhead com uma mistura de sushi comido em Mordor.

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